Fibromialgia: como conviver com ela

Aprenda a identificar e tratar a fibromialgia, uma síndrome caracterizada por um desconforto persistente e generalizado pelo corpo associado a outros sintomas, como cansaço, distúrbios do sono e depressão. A fibromialgia é definida como uma síndrome de amplificação dolorosa não inflamatória e crônica, na qual a maior queixa é uma dor que não dá sossego. Ataca o pescoço, os braços, a coluna, as pernas. “Às vezes, a dor é percebida como uma sensação de peso em uma parte do corpo. Em outras, compara-se a um forte aperto, uma queimação, um ardor”, define a reumatologista Evelin Goldenberg (SP), em seu livro O Coração Sente, O Corpo Dói – Como Reconhecer e Tratar a Fibromialgia, Editora Atheneu.

Embora suas primeiras descrições tenham sido registradas no século 19, somente em 1976, após as publicações do psiquiatra Harvey Moldofsky e do reumatologista Frederick Wolfe, a fibromialgia foi caracterizada como uma doença orgânica, que atinge de 2% a 5% da população. No Brasil, a porcentagem representa um número em torno de 3,5 a 8,9 milhões de portadores. Nos Estados Unidos, já é considerada um problema de saúde pública e afeta cerca de seis milhões de americanos. Em geral, atinge pessoas entre 30 e 60 anos, embora apareça também em adolescentes e crianças. Suas vítimas favoritas são as mulheres, na proporção de oito a dez para cada homem.

 

Na verdade, ela é classificada como síndrome porque se caracteriza por um conjunto de sintomas. “O que está presente em todos os quadros é a dor difusa pelo corpo inteiro, que varia entre uma sensação de quebradeira geral até chegar a uma de intensidade incapacitante, presente na maior parte do dia”, relata Roberto Heymann, reumatologista, assistente doutor de Reumatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da Comissão de Dor e Fibromialgia da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Em geral, vem acompanhada de algumas outras manifestações como formigamento, irritabilidade, enxaqueca, cólon irritável, pernas inquietas e distúrbios do sono. “Cerca de 90% dos pacientes dormem mal, têm sono leve, entrecortado, não reparador. Ao despertar, a pessoa fica com a sensação que não descansou nada”, explica Lauro Franco Seda Junior, neurocirurgião e especialista da Clínica de Dor do Hospital São Camilo, de São Paulo.

É comum ainda os fibromiálgicos apresentarem alterações de humor, com quadros de depressão ou de ansiedade. De acordo com pesquisas, 25% dos portadores apresentam sintomas de depressão junto com as dores difusas, enquanto 50% relatam aos médicos que já tiveram crises depressivas antes de surgir o quadro doloroso.

O melhor “raio X” para o diagnóstico é o conhecimento dos sintomas da síndrome: A dor é real, física, de fundo orgânico. Se escutou frases do tipo “Isso não é nada”, “É da sua cabeça”, “É da idade”, esqueça! Se você sofre há tempos com dores difusas, procure um especialista. Cerca de 90 % dos pacientes relatam fadiga inexplicável e desproporcional ao esforço feito. Para muitos, é quase impossível carregar uma sacola de supermercado. Acompanha o cansaço exagerado, a sensação de falta de energia que dificulta os atos mais simples, como atender um telefone.

Aproximadamente 10% dos fibromiálgicos apresentam sinais da síndrome das pernas inquietas, uma condição que atrapalha o sono. Ela é descrita como uma sensação desagradável nas pernas inteiras ou apenas na porção entre o tornozelo e o joelho, que se apresenta sob a forma de cãibras, formigamentos, puxões, dores ou queimação. Entre 44% a 56% dos pacientes relatam ter dores de cabeça, como a enxaqueca, com dor unilateral, pulsátil ou latejante, na fronte e/ou têmporas, que pode vir ou não acompanhada de náuseas e intolerância a barulho ou luz. Um terço (33%) tem disfunção da articulação temporomandibular (ATM).

Para localizar a ATM, coloque os dedos ao lado das orelhas, abra e feche a boca. Você sentirá a posição da articulação, entre o osso temporal e a mandíbula.

Os problemas nessa região podem causar dores de cabeça, ouvido ou pescoço. 35% também manifestam sintomas de cólon irritável, caracterizado por episódios de prisão de ventre, diarreia ou ambas as situações alternadas, dor e distensão abdominal. Um em cada 10 pacientes pode apresentar cistites de repetição ou problemas uretrais.

Metade dos fibromiálgicos relata ter sensações de parestesia (formigamento) em várias regiões do corpo como mãos, pés, braços.

Mensagens químicas

De onde vem tanta dor? Embora não exista uma causa palpável, como um tumor, uma inflamação ou uma lesão, a fibromialgia tampouco é uma questão puramente psicológica. Os especialistas acreditam que sua origem está em uma alteração no mecanismo do controle da percepção e da modulação da dor.

Para entender melhor, é preciso saber como funciona esse complexo mecanismo em condições normais. Existem diversos receptores (de sensibilidade dolorosa) distribuídos por todo o organismo. A pele, em especial, tem um bom número deles. Agora, imagine uma tachinha na sola de seu pé. Ao espeta-lo, surge um estímulo nervoso que é transmitido, por meio de impulsos elétricos, até a medula e, posteriormente, ao cérebro. Ao longo desse trajeto, são liberados neurotransmissores – substâncias que servem de mensageiros químicos e levam o impulso doloroso de uma célula nervosa a outra. Uma delas é a substância P (da palavra inglesa pain, dor) que acompanha o estímulo nervoso da sola do seu pé até a medula. Quanto mais a substância P se difundir pela estrutura, maior será a sua percepção dolorosa.

Antes de chegar à área onde será decodificado para virar uma resposta dolorosa propriamente dita, o impulso faz um pit stop na região que processa suas emoções. Acontece que as duas zonas cerebrais ficam muito próximas uma da outra. Assim, se você está de bem com a vida, provavelmente sentirá a ponta da tachinha provocar apenas uma espetadinha. Mas se estiver triste, tenso, a dor poderá parecer muito mais intensa do que realmente é.

Por fim, ao chegar ao destino final, o impulso doloroso ainda sofre influência de outros neurotransmissores, como a noradrenalina, serotonina, dopamina e endorfinas, substâncias que possuem a função de inibir a dor. Dessa maneira, a sensação dolorosa é minimizada na maioria dos indivíduos.

Avarias na central

Já nas pessoas que sofrem de fibromialgia parece existir um defeito nesse mecanismo da dor. Por motivos que os especialistas não sabem dizer exatamente quais são, os fibromiálgicos apresentam um desequilíbrio na quantidade dos neurotransmissores envolvidos no esquema: “A presença de níveis aumentados de substância P, associada à menor quantidade de serotonina e noradrenalina, explicam, em parte, o aumento da sensibilidade dolorosa ao ponto de um estímulo que normalmente causaria um pequeno desconforto ser sentido como uma dor de intensidade amplificada”, explica o médico Roberto Heymann.

Quando existe uma baixa de serotonina e noradrenalina, há o aumento da sensação dolorosa porque o funcionamento do mecanismo de inibição da dor está um tanto prejudicado. Depois, estes neurotransmissores que inibem a dor também têm a importante função de regular o humor. Por isso, níveis reduzidos desses neurotransmissores estão associados a quadros depressivos que, por si só, podem aumentar ainda mais a sensação de desconforto.

E mais: nessa altura do campeonato, ocorrem alterações em substâncias como o NMDA e o GABA, perpetuando a cronicidade do incômodo generalizado. Como consequência, esses pacientes têm hiperalgesia, uma resposta exagerada a um estímulo doloroso, e alodínia, que é a sensação de dor proveniente de um estimulo geralmente não doloroso. “É por isso que um simples abraço pode causar dor”, explica a reumatologista Evelin Goldenberg.

Outras sensações que podem estar relacionadas à síndrome: Um terço dos portadores podem apresentar disautonia, que é a alteração de um nervo que provoca queda de pressão quando a pessoa muda de posição, chegando a causar:

  • vertigens, tonturas e desmaios
  • Inchaços sem motivo aparente sobretudo nas mãos
  • Rigidez no corpo, em especial ao se levantar ou devido a mudanças climáticas, associadas a dores nas articulações
  • Sensibilidade ao frio e à umidade
  • 20% podem apresentar dificuldades de cognição ou falhas na memória

Difícil identificação

Não é fácil para os médicos chegarem a uma conclusão. “O diagnóstico da fibromialgia é clínico, pois os exames complementares são absolutamente normais. Ele se baseia na presença do quadro característico de dor e no reconhecimento de pontos predefinidos que sejam dolorosos à pressão dos dedos do especialista”, diz o reumatologista Roberto Heymann. Estes pontos, empregados como critérios para auxiliar o diagnóstico, foram estabelecidos em 1990 pelo Colégio Americano de Reumatologia. Embora sejam 18, se você apresentar 11 pontos dolorosos em um exame, pode ser considerado por seu médico um sério candidato à fibromialgia.

Existe um aspecto que ainda deve ser levado em consideração: as manifestações da síndrome podem ser confundidas com as de outras doenças ósseas ou de lesões musculares e/ou de tendões. Na lista estão a osteoartrose, a DORT/LER (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho/Lesões por Esforços Repetitivos), artrites reumatóides, bursites, tendinites e por aí afora. Outro detalhe: para estabelecer um diagnóstico é preciso conhecer em detalhes a história do paciente, escutar suas queixas e procurar fatores emocionais ou quadros de depressão ou ansiedade. Embora não sejam as causas diretas, com certeza, todos as condições emocionais estão intimamente ligadas à enfermidade.

Formas de controle

Infelizmente não existe uma fórmula única que livre o paciente de uma vez por todas de dores no corpo, problemas de sono, irritabilidade ou depressão associados. Mas a intensidade dolorosa poderá despencar, na medida em que a qualidade de vida aumentar: “O tratamento precisa ser individualizado. Se houver doença associada, certamente ela deverá ser tratada para eliminar uma das causas. Além disso, o paciente não pode ficar parado. Atividades físicas aeróbicas e de baixo impacto, como uma caminhada ou hidroginástica, são extremamente benéficas, pois aumentam os níveis de endorfinas, melhoram o bem-estar e ajudam no relaxamento. Mas seja qual for a escolha, comece devagar “, diz o especialista Roberto Heymann.

A maioria dos profissionais também não dispensa o uso de antidepressivos no tratamento. “Poderia dizer que, junto com exercícios, este é o carro-chefe para manter a dor sob controle. Os medicamentos atuam sobre os níveis de serotonina, melhorando o processo de inibição da dor e as mudanças de humor”, explica o neurocirurgião Lauro Seda.

Tratamentos usados em fisioterapia para acabar com dores musculares, como choquinhos ou ondas de ultrassom, podem ser encarados como coadjuvantes para o tratamento de fibromialgia. A acupuntura, para alguns especialistas, também representa um método terapêutico coadjuvante eficaz, pois parece reduzir o nível das dores e melhorar a depressão do paciente.

Por fim, a psicoterapia tem revelado ser de grande auxílio. “O psicólogo e o psiquiatra têm um papel importante no tratamento da síndrome. Com a terapia, o indivíduo aprende a controlar a angústia e o estresse e a lidar melhor com a depressão ou a ansiedade. Tudo isso leva a uma melhoria na qualidade de vida”, finaliza Lauro Seda.

Causas aparentes

Pesquisas mostram que algumas pessoas têm tendência genética a fibromialgia da mesma maneira que outras apresentam predisposição para diabetes ou hipertensão. Porém, ao que tudo indica, a síndrome só floresce quando há uma ou mais causas que possam interferir no mecanismo de controle da dor. Veja quais são os possíveis gatilhos:

Trauma físico: acidente de automóvel, cirurgia ou esforços repetitivos podem interferir no processo de percepção e modulação da dor.Trauma emocional: situações emocionais difíceis como um divórcio (o próprio ou o dos pais), a perda de uma pessoa querida ou mesmo um abuso na infância estão presentes nos relatos dos pacientes com fibromialgia. O estresse do dia-a-dia também é citado como vilão no desequilíbrio entre os neurotransmissores.

Doenças infecciosas: vírus como o influenza, causador de gripes, parvovírus, o coxsackie Be o Epstein-Barre o da hepatite C podem desencadear uma fibromialgia a médio prazo.Perdas de sono: longos períodos de noites mal dormidas funcionam como um estopim para quem já tem predisposição à enfermidade.Modificações hormonais: quedas bruscas de alguns hormônios, como acontece na menopausa, e distúrbios na tireoide.

Mudanças climáticas: frio e umidade podem iniciar crises de dor.Perguntas frequentes

  1. A fibromialgia é uma doença de verdade ou é apenas psicológica?Desde a década de 1980 que a fibromialgia é reconhecida como “doença real”. Sabe-se hoje que o cérebro dos pacientes com fibromialgia são mais sensíveis a informações vindas do exterior, reconhecendo como dor estímulos que o cérebro da maioria das pessoas reconhece como não dolorosos.
  2. Existe alguma lesão visível ou detectável em algum órgão dos pacientes com fibromialgia?Não. Por isso a doença é tão difícil de ser diagnosticada.
  3. O que causa a fibromialgia? Não se sabe. Atualmente aceita-se que a doença tenha origem genética, uma vez que familiares de primeiro grau apresentam 8,5x mais chances de também ter fibromialgia. Porém, ainda não se conseguiu identificar nenhum gene quem possa ser responsabilizado.
  4. Como é feito o diagnóstico da fibromialgia? Não existe nenhum exame laboratorial ou de imagem que forneça o diagnóstico da fibromialgia. Estes exames são pedidos na maioria das vezes apenas para descartar outras doenças. Atualmente o modo mais usado é através da identificação de pelo menos 11 dos 18 pontos dolorosos típicos da fibromialgia, exemplificados na ilustração abaixo.
  5. Quais são os sintomas da fibromialgia? Dor musculoesquelética difusa, principalmente na coluna, pescoço, braços e pernas; cansaço, mesmo sem se ter feito nenhum esforço físico recente; memória fraca e dificuldade de concentração, dificuldades para dormir; dor de cabeça crônica e sensibilidade a mudanças de temperatura são os sintomas mais comuns.
  6. Existe cura para a fibromialgia? Não. Tenha cuidado com as famosas promessas de cura e remédios milagrosos ou revolucionários. A maioria são engodos que se aproveitam do desespero do paciente para ganhar dinheiro. Já há tratamentos que ajudam no controle dos sintomas, mas nenhum deles é considerado milagroso. O atual tratamento da fibromialgia inclui vários fatores como mudanças de estilo de vida, exercícios, terapias de relaxamento e ajuda psicológica.
  7. Qual o tratamento para fibromialgia?O tratamento é divido em várias direções. Uma delas é o controle da dor; outra é otimização do sono. Exercícios regulares e alongamentos ajudam. Também é importante uma reeducação alimentar, evitando-se álcool e cafeína. Não fumar também ajuda. O tratamento das doenças associadas, como por exemplo depressão,  melhoram a qualidade de vida dos pacientes com fibromialgia.
  8. Quais são as doenças que costumam estar associadas a fibromialgia?Depressão, ansiedade, síndrome do intestino irritável, enxaqueca, dor pélvica crônica, disfunção da articulação temporomandibular e cistite intersticial.
  9. Qual o médico especialista que trata fibromialgia? Reumatologista. Porém, um clínico geral que tenha experiência no assunto, também pode tratar a fibromialgia.
  10. Fibromialgia piora com o passar do tempo? Depende. Cerca de 25% dos casos se tornam pior ao longo dos anos; outros 25% melhoram. A evolução depende da existência de outras doenças associadas e da aderência e resposta do paciente ao tratamento proposto pelo médico. Em um trabalho científico que acompanhou pacientes com fibromialgia por 14 anos, pôde-se perceber que  a maioria dos pacientes não referiu melhora significativa dos sintomas, porém, mais de 75% mantinham uma vida produtiva normal a despeito de terem fibromialgia.
  11. Fibromialgia pode levar ao óbito? Não. Porém, se não tratada corretamente pode prejudicar muito a qualidade de vida e tornar o paciente pouco produtivo.
  12. Existe uma dieta especial para fibromialgia? Não, mas evitar gorduras, álcool e cafeína parece ajudar no tratamento.